quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“O Clube é o acesso secreto ao que vive debaixo da crosta do diamante de fumaça. Tem cheiro de vento que bate no capim, na planície sem fim. Tem poeira virando gente na estrada de terra, na sombra do caminhão.”

Tem Minas Gerais, igreja e coreto. Tem o sino tocando só em um domingo calado de barriga cheia. E aquela solidão que rói, um silêncio triste com cara de janela. Cara de espera. Espera de poeira virando gente na estrada de terra, na sombra do caminhão...

Milton Nascimento. Para me motivar a voltar a escrever para um projeto que tanto prezo mas faltava inspiração, só mesmo o sublime.

Se quisermos entender o tal do Córner Club, temos que compreender o olhar e a voz inóspita deste cara, que tanto angariava amigos, quanto modificava as experiências de vida ao seu redor. O Clube da Esquina é tão pungente até hoje justamente por se sustentar em relações fraternas. É um disco que te aquece e te entende, como uma boa amizade, até mesmo em seus momentos solitários quando faz voz ao lado ingênuo da tristeza, aquele que contempla. Isso fica bem evidente na parte que cabe ao Lô (Borges).

Mas voltando ao Milton. “Com Sol e chuva você sonhava”, a indescritível sensação agridoce da voz que rasga a miudez de um violão desenganado, rebelde, negro. Ao que se desvenda, logo vem “tenho um segredo, você tem medo” e realmente a ênfase é direta a você que está ouvindo. Ele sabe o medo que eu tenho, e eu nunca saberei. São dois olhos brancos abrindo em um sonho soturno. É a capa do álbum Minas: seus lábios são doces, e assim como as palpebras, finas em meio a traços rudes, sulcos de sofrimento. Mas os olhos são como um agudo clarão. É o ódio com complacência, um muro que desaba.

Junte Lô e Milton em versão pura e temos aqui um tilt de perfeição: Clube da Esquina 1 e 2 (as músicas). É um amor de olhos claros, fraterna solidão, um grito com os pés na terra. É o auge do sabor.

Bom, como prometido no título, aqui vão 5 discos para entender o que digo (isso porque não queria dizer demais). Estão por ordem de lançamento, vamos lá:

1. Milton Nascimento e Lô Borges - Clube da Esquina (1972)

Por tudo isso e muito mais: o principal álbum duplo da história da música brasileira, um sopro eterno de modernidade aliado à simplicidade, um disco para ouvir em qualquer período da vida. Um disco para lembrar de quem você é.

2. Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta - idem (1973)

Disco recém-descoberto por mim e desde então uma das maiores pérolas já escutadas por este autor, traz 4 compositores com cheiro de Clube da Esquina indie. Embora sejam terminantemente diferentes em seus estilos, o disco é conciso em seu espírito de produção despojada e o uso de elementos comuns nas músicas: arranjo de banda, vocais conjuntos, pequenas orquestrações inseridas.

Beto Guedes é o prog rock da turma e traz seu estilo (sobre o qual falarei mais tarde) alienígena de harmonização; Novelli é mais tradicional, mas tem uma jovialidade datada que soa até charmosa atualmente; Toninho Horta, motivo de eu ter chegado a esse disco, tem aquele frescor que a gente vê no sorriso de um moleque e que se quer guardar como a imagem definitiva da paz. Manuel, o audaz, músicas das melhores do clube; por fim Danilo Caymmi, que se juntou à turma no Rio, e que traz duas composições inspiradíssimas, caminhando por um lado sofisticado do samba que com aquele ambiente soava muito original. Vale muito a pena o garimpo!

3. Milton Nascimento – Minas (1973)

A entrada do céu toca “Minas”, com certeza. Pedaço do sublime, faz o tempo parar. Disco mais maduro e de um espírito único, Milton soa inóspito e doce como a própria capa, imerso nas mesmas influências prog de Beto Guedes (que participa do disco).

  1. Milton Nascimento - Milagre dos Peixes Ao Vivo (1974)

“Chegou no porto um canhão”. Disco ao vivo conceitual e sombrio, Milton no auge da sua expressão. Como é possível lançar dois discos tão incríveis no mesmo ano (Minas e Milagre dos Peixes)? E lançar um disco ao vivo reunindo-os com orquestra no Teatro Municipal de São Paulo? É desafiar o limite do incrível. Disco carregado de angústia, assim como de beleza, mas talvez não agrade tanto quanto os outros por sua imensa tristeza.


  1. Beto Guedes – A Página do Relâmpago Elétrico (1977)

Saturasom aproveita para salvar não só Milton da saturação, como também Beto Guedes, compositor de voz e harmonia única, abraçado pelos costumes pós-hippies e pasteurizado como de fato todos o são.

Beto Guedes teve brilhante trajetória nos anos 70 em todos os discos acima citados e lançou este primeiro disco solo incrível já na rabeira do movimento, mas que guarda um peso dramático e uma energia totalmente diferente dos seus contemporâneos.

De todos, é de fato o mais rock’n roll, mas marca pela sua sinuosidade harmônica que contrapõe a voz anasalada e calma, quase irônica em relação ao peso da sua música. O uso do bandolim confere um cheiro de mato diferente, e instrumentais recheados de psicodelia ganham alma com a harmonia alienígena. Digo isso porque suas dissonâncias trazem um sentido agridoce de descoberta que é como uma aparição. Tem algo de sagrado e algo de etéreo, que vem do além. Como um disco voador descendo, a sensação de um milagre.

São discos que devem ser ouvidos sempre, pois sempre vão soar diferente. Peço perdão se deixei alguns medalhões do movimento de fora (como o disco do tênis do Lô, por exemplo), mas me baseei na qualidade e coerência, e realmente acho que estes são incríveis e originais dentro dessa proposta.

Voltarei a falar de Milton, pois ele merece um post só pra ele...

Quer achar estes discos? http://thebossablog.blogspot.com/