Rita Lee foi passear... em Shangrilá? Que história é essa de mandar tudo pra aquele lugar, mulher?
Pois é, a figura feminina mais emblemática da música brasileira e dona de uma história tão curiosa quanto enigmática, Rita Lee Jones era o que havia de mais cool na música brasileira, cool esse que em 30 anos se tornou o que há de mais conservador no mainstream. Ultimamente, Rita Lee tem o mesmo teor de transgressão de Elton John e seus excessos extremamente previsíveis, situação incondizente com o charme do seu olhar indecifrável de menina paulistana (a capa do Build Up diz absolutamente tudo).
Toda essa mitologia se construiu de frente a uma figura camaleônica, com uma postura artística nunca ortodoxa, e ao mesmo tempo extremamente confessional. É esse último quesito inclusive que dá a todo fã o direito pouco decente de tentar decifrar a sua vida (“ah, ela gosta até hoje do Arnaldo” ou “ta na cara que o filho é do Carlini”). Tudo isso para tentar entender o que se passa naquela persona.
Rita Lee n°1 – desgovernada doçura
Tem coisa mais extra-cool do que participar de uma banda de rock psicodélico no Brasil nos anos 60 e ser uma menina de uma beleza inóspita?
Rita aqui tinha a voz doce e pouco impostada, o que dava um ar Astrud goes rock, que se interpelava com momentos de uma atitude desvairada (“Meu Refrigerador não funciona”). Ao que parece, os irmãos Baptista não gostavam muito dessa desgovernada doçura e colocaram ela pra passear. Rita então, inspira tudo o que o rock’n roll pode oferecer, e aí nasce o mito.
Rita Lee n°2 – disseram que o palco não era mais aquele lugar
O que é o Rock’n Roll afinal? Nem tudo se explica em calças de lycra apertadas e frenesi no palco. O rock’n roll enquanto estilo, esculpido à maneira rollingstoneana é uma explosão de poder, melancolia e rebelião, a poesia suja da liberdade das ruas, algumas vezes escondidas nos becos.
Com Cilibrinas do Éden, não há mais doçura desgovernada, e sim uma mulher poderosa e focada, pronta pra estrada. Rita e Lúcia, Thelma e Louise.
Também tinha um Brasil totalmente na retaguarda, diante de uma situação política fechada. E Rita Lee era demais para essas pequenas cabeças.
À medida que cresce a popularidade, cresce também o seu arsenal.
Com Tutti Frutti, temos um primeiro momento temos puro rock’n roll (“não sei se eu estou pirando / ou se as coisas estão melhorando” – mamãe natureza, 1973), depois temos o auge do power rock, mas já agressivo (“gaste um tempo comigo / não, não tenha juízo / dê-se ao luxo de estar sendo fútil agora” – dançar para não dançar, 1975) e por fim a revolta que acabou em repressão (“quantas vezes eles vão me perguntar / se eu não faço nada a não ser cantar”). Com certeza, os militares engoliram a seco Rita Lee durante anos, mas Entradas e Bandeiras garantiu a Rita Lee a prisão (grávida) e um mudança de postura que afetaria o resto de sua carreira.
Rita Lee n°3 – chega mais
Não posso afirmar (não estudei ao fundo, e prefiro me basear em impressões pessoais) em que dado momento a mudança de postura ocorreu, mas fato é que a partir do final dos anos 70, Rita realmente abraçou o Brasil.
A incrível popularidade que Rita Lee alcançou e que a mantém (e a saturou também, senão não teria motivo para esse post) em voga até hoje se deve à melodiosa parceria com Roberto de Carvalho. A completude do romance trouxe de volta a desgovernada doçura do amor investida em uma mulher de atitude competente e com uma experiência de vida poderosa.
Rita Lee, de 1979, traz Rita com sangue de rock e voz de mulher. O som era uma mistura do seu universo, muito mais diverso do que o rock saxão. Entra o deboche-disco brasileiro, entra a música latina, entra o suave. E quem acha que ela se vendeu, realmente não entende a alta competência de uma ironia desse porte (“me prenda nos braços / me torture de carinhos / beijinhos, abraços / depois me coce / me adoce até eu confessar”), cantada por uma mulher que foi presa e achavam que seria destruída. Imagino a cara do militar vendo Rita Lee poderosa, ganhando a TV, o glamour cantando um troço dessa magnitude. É realmente uma jogada brilhante. Rita estava livre.
E dentro dessa liberdade (que acompanhou a libertação do seu próprio país) Rita caminhou ao pop de estádio com muita identidade, talvez mais do que nunca. Nem luxo, nem lixo, Lança Perfume, e até a reciclada Bad Trip dos tempos de Cilibrinas que ganha outro verniz em Shangrilá.
Em um primeiro momento, essa descoberta de uma Rita Lee definitiva foi o golpe perfeito, mas que depois acabou caindo em um lugar-comum que perdura até hoje. Há uma tentativa de retornar ao rock no começo dos anos 90, mas que descamba justamente pela desconexão com o que havia de musical naquele momento.
Rita virou pop de butique e é adorada por crianças e velhinhas, em uma empatia praticamente impossível de adivinhar há 35 anos atrás. Não consigo ouvir sua desgastada pilha de discos ao vivo dos últimos anos, não gosto de alimentar o desgaste. Talvez a solução seja procurar algum Rick Rubin por aí que faça tal qual feito ao Johnny Cash e extraia o valor de envelhecer de uma mulher tão poderosa e transforme
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Preferidos do editor: Fruto Proibido, Entradas e Bandeiras, e o Rita Lee de 1979 (por favor, ignore Maria Mole).
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