segunda-feira, 17 de maio de 2010
Quero Viver de Música Pt. III - Pirateando Semiosis
quarta-feira, 24 de março de 2010
Quero Viver de Música - parte 2
Quero Viver de Música - parte 1
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Rita Lee foi passear...
Rita Lee foi passear... em Shangrilá? Que história é essa de mandar tudo pra aquele lugar, mulher?
Pois é, a figura feminina mais emblemática da música brasileira e dona de uma história tão curiosa quanto enigmática, Rita Lee Jones era o que havia de mais cool na música brasileira, cool esse que em 30 anos se tornou o que há de mais conservador no mainstream. Ultimamente, Rita Lee tem o mesmo teor de transgressão de Elton John e seus excessos extremamente previsíveis, situação incondizente com o charme do seu olhar indecifrável de menina paulistana (a capa do Build Up diz absolutamente tudo).
Toda essa mitologia se construiu de frente a uma figura camaleônica, com uma postura artística nunca ortodoxa, e ao mesmo tempo extremamente confessional. É esse último quesito inclusive que dá a todo fã o direito pouco decente de tentar decifrar a sua vida (“ah, ela gosta até hoje do Arnaldo” ou “ta na cara que o filho é do Carlini”). Tudo isso para tentar entender o que se passa naquela persona.
Rita Lee n°1 – desgovernada doçura
Tem coisa mais extra-cool do que participar de uma banda de rock psicodélico no Brasil nos anos 60 e ser uma menina de uma beleza inóspita?
Rita aqui tinha a voz doce e pouco impostada, o que dava um ar Astrud goes rock, que se interpelava com momentos de uma atitude desvairada (“Meu Refrigerador não funciona”). Ao que parece, os irmãos Baptista não gostavam muito dessa desgovernada doçura e colocaram ela pra passear. Rita então, inspira tudo o que o rock’n roll pode oferecer, e aí nasce o mito.
Rita Lee n°2 – disseram que o palco não era mais aquele lugar
O que é o Rock’n Roll afinal? Nem tudo se explica em calças de lycra apertadas e frenesi no palco. O rock’n roll enquanto estilo, esculpido à maneira rollingstoneana é uma explosão de poder, melancolia e rebelião, a poesia suja da liberdade das ruas, algumas vezes escondidas nos becos.
Com Cilibrinas do Éden, não há mais doçura desgovernada, e sim uma mulher poderosa e focada, pronta pra estrada. Rita e Lúcia, Thelma e Louise.
Também tinha um Brasil totalmente na retaguarda, diante de uma situação política fechada. E Rita Lee era demais para essas pequenas cabeças.
À medida que cresce a popularidade, cresce também o seu arsenal.
Com Tutti Frutti, temos um primeiro momento temos puro rock’n roll (“não sei se eu estou pirando / ou se as coisas estão melhorando” – mamãe natureza, 1973), depois temos o auge do power rock, mas já agressivo (“gaste um tempo comigo / não, não tenha juízo / dê-se ao luxo de estar sendo fútil agora” – dançar para não dançar, 1975) e por fim a revolta que acabou em repressão (“quantas vezes eles vão me perguntar / se eu não faço nada a não ser cantar”). Com certeza, os militares engoliram a seco Rita Lee durante anos, mas Entradas e Bandeiras garantiu a Rita Lee a prisão (grávida) e um mudança de postura que afetaria o resto de sua carreira.
Rita Lee n°3 – chega mais
Não posso afirmar (não estudei ao fundo, e prefiro me basear em impressões pessoais) em que dado momento a mudança de postura ocorreu, mas fato é que a partir do final dos anos 70, Rita realmente abraçou o Brasil.
A incrível popularidade que Rita Lee alcançou e que a mantém (e a saturou também, senão não teria motivo para esse post) em voga até hoje se deve à melodiosa parceria com Roberto de Carvalho. A completude do romance trouxe de volta a desgovernada doçura do amor investida em uma mulher de atitude competente e com uma experiência de vida poderosa.
Rita Lee, de 1979, traz Rita com sangue de rock e voz de mulher. O som era uma mistura do seu universo, muito mais diverso do que o rock saxão. Entra o deboche-disco brasileiro, entra a música latina, entra o suave. E quem acha que ela se vendeu, realmente não entende a alta competência de uma ironia desse porte (“me prenda nos braços / me torture de carinhos / beijinhos, abraços / depois me coce / me adoce até eu confessar”), cantada por uma mulher que foi presa e achavam que seria destruída. Imagino a cara do militar vendo Rita Lee poderosa, ganhando a TV, o glamour cantando um troço dessa magnitude. É realmente uma jogada brilhante. Rita estava livre.
E dentro dessa liberdade (que acompanhou a libertação do seu próprio país) Rita caminhou ao pop de estádio com muita identidade, talvez mais do que nunca. Nem luxo, nem lixo, Lança Perfume, e até a reciclada Bad Trip dos tempos de Cilibrinas que ganha outro verniz em Shangrilá.
Em um primeiro momento, essa descoberta de uma Rita Lee definitiva foi o golpe perfeito, mas que depois acabou caindo em um lugar-comum que perdura até hoje. Há uma tentativa de retornar ao rock no começo dos anos 90, mas que descamba justamente pela desconexão com o que havia de musical naquele momento.
Rita virou pop de butique e é adorada por crianças e velhinhas, em uma empatia praticamente impossível de adivinhar há 35 anos atrás. Não consigo ouvir sua desgastada pilha de discos ao vivo dos últimos anos, não gosto de alimentar o desgaste. Talvez a solução seja procurar algum Rick Rubin por aí que faça tal qual feito ao Johnny Cash e extraia o valor de envelhecer de uma mulher tão poderosa e transforme
http://thebossablog.blogspot.com/search/label/Rita%20Lee
Preferidos do editor: Fruto Proibido, Entradas e Bandeiras, e o Rita Lee de 1979 (por favor, ignore Maria Mole).
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
“O Clube é o acesso secreto ao que vive debaixo da crosta do diamante de fumaça. Tem cheiro de vento que bate no capim, na planície sem fim. Tem poeira virando gente na estrada de terra, na sombra do caminhão.”
Tem Minas Gerais, igreja e coreto. Tem o sino tocando só em um domingo calado de barriga cheia. E aquela solidão que rói, um silêncio triste com cara de janela. Cara de espera. Espera de poeira virando gente na estrada de terra, na sombra do caminhão...
Milton Nascimento. Para me motivar a voltar a escrever para um projeto que tanto prezo mas faltava inspiração, só mesmo o sublime.
Se quisermos entender o tal do Córner Club, temos que compreender o olhar e a voz inóspita deste cara, que tanto angariava amigos, quanto modificava as experiências de vida ao seu redor. O Clube da Esquina é tão pungente até hoje justamente por se sustentar em relações fraternas. É um disco que te aquece e te entende, como uma boa amizade, até mesmo em seus momentos solitários quando faz voz ao lado ingênuo da tristeza, aquele que contempla. Isso fica bem evidente na parte que cabe ao Lô (Borges).
Mas voltando ao Milton. “Com Sol e chuva você sonhava”, a indescritível sensação agridoce da voz que rasga a miudez de um violão desenganado, rebelde, negro. Ao que se desvenda, logo vem “tenho um segredo, você tem medo” e realmente a ênfase é direta a você que está ouvindo. Ele sabe o medo que eu tenho, e eu nunca saberei. São dois olhos brancos abrindo em um sonho soturno. É a capa do álbum Minas: seus lábios são doces, e assim como as palpebras, finas em meio a traços rudes, sulcos de sofrimento. Mas os olhos são como um agudo clarão. É o ódio com complacência, um muro que desaba.
Junte Lô e Milton em versão pura e temos aqui um tilt de perfeição: Clube da Esquina 1 e 2 (as músicas). É um amor de olhos claros, fraterna solidão, um grito com os pés na terra. É o auge do sabor.
Bom, como prometido no título, aqui vão 5 discos para entender o que digo (isso porque não queria dizer demais). Estão por ordem de lançamento, vamos lá:
Beto Guedes é o prog rock da turma e traz seu estilo (sobre o qual falarei mais tarde) alienígena de harmonização; Novelli é mais tradicional, mas tem uma jovialidade datada que soa até charmosa atualmente; Toninho Horta, motivo de eu ter chegado a esse disco, tem aquele frescor que a gente vê no sorriso de um moleque e que se quer guardar como a imagem definitiva da paz. Manuel, o audaz, músicas das melhores do clube; por fim Danilo Caymmi, que se juntou à turma no Rio, e que traz duas composições inspiradíssimas, caminhando por um lado sofisticado do samba que com aquele ambiente soava muito original. Vale muito a pena o garimpo!
- Milton Nascimento - Milagre dos Peixes Ao Vivo (1974)
- Beto Guedes – A Página do Relâmpago Elétrico (1977)
Saturasom aproveita para salvar não só Milton da saturação, como também Beto Guedes, compositor de voz e harmonia única, abraçado pelos costumes pós-hippies e pasteurizado como de fato todos o são.
Beto Guedes teve brilhante trajetória nos anos 70 em todos os discos acima citados e lançou este primeiro disco solo incrível já na rabeira do movimento, mas que guarda um peso dramático e uma energia totalmente diferente dos seus contemporâneos.
De todos, é de fato o mais rock’n roll, mas marca pela sua sinuosidade harmônica que contrapõe a voz anasalada e calma, quase irônica em relação ao peso da sua música. O uso do bandolim confere um cheiro de mato diferente, e instrumentais recheados de psicodelia ganham alma com a harmonia alienígena. Digo isso porque suas dissonâncias trazem um sentido agridoce de descoberta que é como uma aparição. Tem algo de sagrado e algo de etéreo, que vem do além. Como um disco voador descendo, a sensação de um milagre.
São discos que devem ser ouvidos sempre, pois sempre vão soar diferente. Peço perdão se deixei alguns medalhões do movimento de fora (como o disco do tênis do Lô, por exemplo), mas me baseei na qualidade e coerência, e realmente acho que estes são incríveis e originais dentro dessa proposta.
Voltarei a falar de Milton, pois ele merece um post só pra ele...
Quer achar estes discos? http://thebossablog.blogspot.com/
domingo, 12 de abril de 2009
Paralamas – a 1ª banda indie do Brasil
Eu sei que Paralamas não anda tão por baixo assim, mas para mim é uma banda morta. Ao ouvir “Brasil Afora” e depois assistir o vídeo do show do Rock in Rio 85, você entende a minha frustração.
Antes de me taxar como um crítico sem vergonha, é preciso ressaltar o quanto eu amo Paralamas e que essa é uma resenha sem dúvida apaixonada. E é por esse motivo que eu nem fiz questão de ir ao show de estréia da nova turnê que rolou na minha cidade natal, São Carlos.
Herbert Vianna, para mim, está entre os maiores compositores populares e acessíveis de todos os tempos, dentre uma lista seleta: Cartola, Dorival Caymmi, Gilberto Gil (dentre os grandes da MPB geração 60, o mais acessível), Lulu Santos, que merecerá um post ressucitativo, Rita Lee, entre tantos outros. Ele é o mais brilhante da sua geração e isso não é mero fanatismo, é possível descrever:
.: Ele fez (claro que com o acompanhamento indispensável de Bi e Barone) “O Passo do Lui”, o disco de rock mainstream mais incrível, cool e bem vendido dos anos 80, misturando pós-punk com reggae e new wave, 3 estilos de vanguarda num Brasil que nem bem ocupado era.
.: Eles (banda) conseguiram sobreviver à mudança de atitude sobre o rock no Brasil dos anos 90 sem perder o público e a dignidade, além de reinventar o próprio som na mesma época.
.: Manteve a humildade intacta e isso é visível ao longo dos anos, e pela própria amizade com os companheiros de banda, fator marcante.
.: Conseguiu fazer um disco inédito, excelente e cru depois de 20 anos de banda (essa comentário é pessoal, rs).
.: É o único nerd bem sucedido da história da música brasileira.
O Rock in Rio de 85 é sem dúvida o ponto de partida para todo este caminho.
O público carioca ainda era um misto pós-hippie e é bem divertido reparar no DVD que, pela dança de alguns, era cabível que o Jimi Hendrix estivesse tocando ao invés de uma banda dos anos
Entra no palco um power trio a
Agora o filé do Saturasom: o pico do desgaste. Quando você ouve nesse DVD a recém-lançada “Meu Erro”, é impossível não se lembrar das dúzias de videokês, festa de tia, palquinhos, barzinhos e qualquer coisa que o valha e não pensar “essa música foi lançada um dia?”. Para mim ela sempre existiu, sei lá, é uma adaptação folclórica. Quem no universo não sabe começar o “eu quis dizer/você não quis escutar”? Pois é, naquele 16 de janeiro de 85, ninguém sabia ainda. E se você ouvir sem vícios, vai reparar no riff de baixo que desliza na batida direta, com cara de Pretenders. A voz frágil do Herbert, contrariando a virilidade dos cantores contemporâneos a ele, levando uma letra direta, derrotada, objetiva, assumida. “o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria”.
Tirando “Patrulha Noturna” (“só to tirando chinfra com a minha lambreta”) e “Óculos” que embora seja ótima, peca pelo exagero de inocência, o resto do show poderia, claro que com uma reformulação de timbragem, ser copiado e colado na Rua Augusta hoje em dia sem problemas.
Depois desse show, a banda saiu da vida para entrar na história: lançou “Selvagem” em 86, uma mão cheia de megahits e, como uma boa estratégia (semelhante a do U2), abandonou a cara de banda pequena para bancar a responsabilidade de ser a maior banda do Brasil. E deu nisso aí, uma penca de regravações, música em novela, sucesso total. Saturasom vem corrigir esse desvio de conduta de desmerecer a obra por causa de tal acontecimento e dar a verdade dos fatos.
Só para complementar, quando “Longo Caminho” foi lançado, eu realmente achei que os Paralamas tinham voltado. Disco gravado ao vivo, guitarra, baixo e bateria com poucos metais e outros instrumentos, letras derrotistas e cruas (“o segundo que antecede o beijo / a palavra que destrói o amor”), som bem de verdade. Mas o Herbert, agora defasado fisicamente da sua função de compositor, já não consegue mais carregar o peso construído em torno do nome “Os Paralamas do Sucesso”. Não dá mais pra ser simples, ser pequeno, embora ele não tenha rifado sua dignidade. Prefiro não assistir um herói vencido, pra mim é sofrível demais. Mas quem sabe a vida não me prepara uma surpresa?Sobre o site
Bom, nem todo mundo sobreviveu ao tempo como a Madonna e o David Bowie. Com a música brasileira então, o tempo foi cruel, embora ciclicamente hajam revisões. Roberto Carlos já entrou e saiu de moda mais do que o jeans com camiseta branca, e assim foi com Caetano, Gil, Erasmo Carlos, Novos Baianos, entre tantos outros artistas sobre os quais escreverei daqui pra baixo.
O tempo é cruel mas a história não. Revivamos então o cool do que hoje toca na Nova Brasil FM e divide espaço com a “nova MPB”. Trágico, cômico, comercial, Pedro Mariano. Jesus, o que fizeram com o rádio?
