segunda-feira, 17 de maio de 2010

Quero Viver de Música Pt. III - Pirateando Semiosis

Bom Pessoal, considerações rápidas:

- roubaram o meu cofrinho do display e a venda direta através da "rede social rudimentar" do Semiosis in Guaianazes foi temporariamente suspensa até que haja solução melhor (ou tempo para desenvolvê-la)

- Ainda não arranjei local para tocar e isso é uma lástima, mas tamo aí na pista!

- Gostou do semiosis e quer recriá-lo ao vivo? Topo forte! Manda e-mail pra mim ou tuitada no @bozaum pra gente tocar junto e criar vários efeitos especiais!

- Gostou do semiosis e quer fazer o cover do cover? Manda seu vídeo que eu posto aqui no Saturasom!

Por fim a notícia bombástica: eu vou vazar o meu próprio disco! Semiosis disponível para download (mas por favor, não deixem de encomendá-lo e comprá-lo, vamo ajudar o @bozaum !)

- Quem comentar, ganha faixas exclusivas!! Deixe seu e-mail!


Obrigado sempre e
saldo até agora: R$ 23,00

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quero Viver de Música - parte 2

Primeiro relato - o "lançamento".

O nome Semiosis in Guaianazes estava no meu imaginário desde uma conversa com o Edu há muito tempo atrás (uns 5 meses) em que eu fazia piadas com semiótica. É bem divertido, mas só faz sentido (nenhum) pra algumas pessoas. Fico imaginando uma entrevista com algumas dessas celebridades de TV tentando explicar essa piada interna de maneira séria e competente (é bem Rede TV essa parada de jornalismo com competência).
Enfim, são 6 músicas que não fariam sentido nenhum juntas se não tivesse eu cantando. Sem presunção nenhuma, mas são canções de mundos muuuito diferentes, se você ouviu, já entende o que eu falo, né não?
A capa ficou bem bacana (eu queria alguma coisa a ver com o Born to Run do Bruce Springsteen, mas acabei optando pelo anonimato), e o display (ready made) ficou bem melhor do que eu esperava!
Agora, graças a um problema na impressão na capa, o lançamento atrasou e eu não consegui cumprir minha promessa do twitter. Mas agora tá lá, meu experimento social:


- O Display carrega 15 CD's (que serão repostos a cada dos dias) **eu sei que o CD já era, mas foi uma primeira forma de atrair as pessoas para essa rede social rudimentar**.
- O pagamento é na base da confiança (tem uma caixinha facilmente arrombável para receber os incríveis 8 reais cobrados)
- O display tem um caderno que é uma espécie de mailing jurássico, onde as pessoas escrevem resenhas, deixam seus e-mails para receber conteúdo exclusivo (tenho sobras de estúdio, pessoal!), e fazem whateverezas!

Vamos ver como vai funcionar essa parada e torcer por um baixo índice de criminalidade!
Em breve, os comentários do cadernim estarão disponíveis aqui no site!
Comentem, Retuitem, façam o caralho a quatro! Quero ver até onde isso vai chegar!

1a tiragem: 50 cópias
vendas: 3 cópias! (sendo 1 digital)
Lucro até agora: R$ 23,00 - já me rendeu um x-salada, aee!
Dica do dia: experimentar novas formas de venda (digital, por exemplo).

Obrigado, queridos! Vamos em frente!



Quero Viver de Música - parte 1

Calma, mínimo design, não tem nada a ver contigo.
Este projeto é uma maneira de viver com mais música no meu dia-a-dia, e invariavelmente, tem a ver com dinheiro também.
Todo moleque que teve 15 anos já sonhou em viver de música, por menos talentoso (e auto-crítico) que fosse. Eu também! E para mim (e para o Márcio Borges) os sonhos não envelhecem, eles apenas cristalizam, mas continuam brilhantes, ideais.

Hoje, a música para mim já não tem aquela relação intrínseca com o estrelato tão estereotipada nas mídias juvenis: é uma veia de expressão vital. É um gesto, e que para todo mundo deveria acontecer, havendo habilidade instrumental ou não, muita ou pouca voz. A música expõe, descobre e relaciona, exorcisa.

Resolvi exorcisar o meu medo de cantar e gravei um EP só com covers. Por aqui, quero criar com vocês um vínculo de ir relatando como este parto vai se desenvolver, caminhar por aí, ganhar a vida de outras pessoas.

Tudo estará exposto aqui: o lançamento dos discos (ou dos formatos), as críticas das pessoas, as reações, o retorno (em dinheiro mesmo).
Estou saindo do zero, colocando o meu produto nu, sem muita explicação.

Vamos ver se vocês estão preparados para o novo!
Quero viver de música, e isso está acontecendo agora, enquanto meu som chega até vocês e reverbera, e enquanto eu consigo ganhar o necessário para continuar!

É uma bela noite para voar!


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Rita Lee foi passear...

Rita Lee foi passear... em Shangrilá? Que história é essa de mandar tudo pra aquele lugar, mulher?

Pois é, a figura feminina mais emblemática da música brasileira e dona de uma história tão curiosa quanto enigmática, Rita Lee Jones era o que havia de mais cool na música brasileira, cool esse que em 30 anos se tornou o que há de mais conservador no mainstream. Ultimamente, Rita Lee tem o mesmo teor de transgressão de Elton John e seus excessos extremamente previsíveis, situação incondizente com o charme do seu olhar indecifrável de menina paulistana (a capa do Build Up diz absolutamente tudo).

Toda essa mitologia se construiu de frente a uma figura camaleônica, com uma postura artística nunca ortodoxa, e ao mesmo tempo extremamente confessional. É esse último quesito inclusive que dá a todo fã o direito pouco decente de tentar decifrar a sua vida (“ah, ela gosta até hoje do Arnaldo” ou “ta na cara que o filho é do Carlini”). Tudo isso para tentar entender o que se passa naquela persona.

Rita Lee n°1 – desgovernada doçura

Tem coisa mais extra-cool do que participar de uma banda de rock psicodélico no Brasil nos anos 60 e ser uma menina de uma beleza inóspita?

Rita aqui tinha a voz doce e pouco impostada, o que dava um ar Astrud goes rock, que se interpelava com momentos de uma atitude desvairada (“Meu Refrigerador não funciona”). Ao que parece, os irmãos Baptista não gostavam muito dessa desgovernada doçura e colocaram ela pra passear. Rita então, inspira tudo o que o rock’n roll pode oferecer, e aí nasce o mito.

Rita Lee n°2 – disseram que o palco não era mais aquele lugar

O que é o Rock’n Roll afinal? Nem tudo se explica em calças de lycra apertadas e frenesi no palco. O rock’n roll enquanto estilo, esculpido à maneira rollingstoneana é uma explosão de poder, melancolia e rebelião, a poesia suja da liberdade das ruas, algumas vezes escondidas nos becos.

Em Rita Lee, todo esse despojamento ganha uma aura feminina de auto-afirmação 2 vezes maior e, claro, charme, envolvência.

Com Cilibrinas do Éden, não há mais doçura desgovernada, e sim uma mulher poderosa e focada, pronta pra estrada. Rita e Lúcia, Thelma e Louise.

Também tinha um Brasil totalmente na retaguarda, diante de uma situação política fechada. E Rita Lee era demais para essas pequenas cabeças.

À medida que cresce a popularidade, cresce também o seu arsenal.

Com Tutti Frutti, temos um primeiro momento temos puro rock’n roll (“não sei se eu estou pirando / ou se as coisas estão melhorando” – mamãe natureza, 1973), depois temos o auge do power rock, mas já agressivo (“gaste um tempo comigo / não, não tenha juízo / dê-se ao luxo de estar sendo fútil agora” – dançar para não dançar, 1975) e por fim a revolta que acabou em repressão (“quantas vezes eles vão me perguntar / se eu não faço nada a não ser cantar”). Com certeza, os militares engoliram a seco Rita Lee durante anos, mas Entradas e Bandeiras garantiu a Rita Lee a prisão (grávida) e um mudança de postura que afetaria o resto de sua carreira.

Rita Lee n°3 – chega mais

Não posso afirmar (não estudei ao fundo, e prefiro me basear em impressões pessoais) em que dado momento a mudança de postura ocorreu, mas fato é que a partir do final dos anos 70, Rita realmente abraçou o Brasil.

A incrível popularidade que Rita Lee alcançou e que a mantém (e a saturou também, senão não teria motivo para esse post) em voga até hoje se deve à melodiosa parceria com Roberto de Carvalho. A completude do romance trouxe de volta a desgovernada doçura do amor investida em uma mulher de atitude competente e com uma experiência de vida poderosa.

Rita Lee, de 1979, traz Rita com sangue de rock e voz de mulher. O som era uma mistura do seu universo, muito mais diverso do que o rock saxão. Entra o deboche-disco brasileiro, entra a música latina, entra o suave. E quem acha que ela se vendeu, realmente não entende a alta competência de uma ironia desse porte (“me prenda nos braços / me torture de carinhos / beijinhos, abraços / depois me coce / me adoce até eu confessar”), cantada por uma mulher que foi presa e achavam que seria destruída. Imagino a cara do militar vendo Rita Lee poderosa, ganhando a TV, o glamour cantando um troço dessa magnitude. É realmente uma jogada brilhante. Rita estava livre.

E dentro dessa liberdade (que acompanhou a libertação do seu próprio país) Rita caminhou ao pop de estádio com muita identidade, talvez mais do que nunca. Nem luxo, nem lixo, Lança Perfume, e até a reciclada Bad Trip dos tempos de Cilibrinas que ganha outro verniz em Shangrilá.

Em um primeiro momento, essa descoberta de uma Rita Lee definitiva foi o golpe perfeito, mas que depois acabou caindo em um lugar-comum que perdura até hoje. Há uma tentativa de retornar ao rock no começo dos anos 90, mas que descamba justamente pela desconexão com o que havia de musical naquele momento.

Rita virou pop de butique e é adorada por crianças e velhinhas, em uma empatia praticamente impossível de adivinhar há 35 anos atrás. Não consigo ouvir sua desgastada pilha de discos ao vivo dos últimos anos, não gosto de alimentar o desgaste. Talvez a solução seja procurar algum Rick Rubin por aí que faça tal qual feito ao Johnny Cash e extraia o valor de envelhecer de uma mulher tão poderosa e transforme em música. Mas para entender um disco desse, caso ele aparecer, monte primeiro o quebra-cabeça original:

http://thebossablog.blogspot.com/search/label/Rita%20Lee

Preferidos do editor: Fruto Proibido, Entradas e Bandeiras, e o Rita Lee de 1979 (por favor, ignore Maria Mole).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“O Clube é o acesso secreto ao que vive debaixo da crosta do diamante de fumaça. Tem cheiro de vento que bate no capim, na planície sem fim. Tem poeira virando gente na estrada de terra, na sombra do caminhão.”

Tem Minas Gerais, igreja e coreto. Tem o sino tocando só em um domingo calado de barriga cheia. E aquela solidão que rói, um silêncio triste com cara de janela. Cara de espera. Espera de poeira virando gente na estrada de terra, na sombra do caminhão...

Milton Nascimento. Para me motivar a voltar a escrever para um projeto que tanto prezo mas faltava inspiração, só mesmo o sublime.

Se quisermos entender o tal do Córner Club, temos que compreender o olhar e a voz inóspita deste cara, que tanto angariava amigos, quanto modificava as experiências de vida ao seu redor. O Clube da Esquina é tão pungente até hoje justamente por se sustentar em relações fraternas. É um disco que te aquece e te entende, como uma boa amizade, até mesmo em seus momentos solitários quando faz voz ao lado ingênuo da tristeza, aquele que contempla. Isso fica bem evidente na parte que cabe ao Lô (Borges).

Mas voltando ao Milton. “Com Sol e chuva você sonhava”, a indescritível sensação agridoce da voz que rasga a miudez de um violão desenganado, rebelde, negro. Ao que se desvenda, logo vem “tenho um segredo, você tem medo” e realmente a ênfase é direta a você que está ouvindo. Ele sabe o medo que eu tenho, e eu nunca saberei. São dois olhos brancos abrindo em um sonho soturno. É a capa do álbum Minas: seus lábios são doces, e assim como as palpebras, finas em meio a traços rudes, sulcos de sofrimento. Mas os olhos são como um agudo clarão. É o ódio com complacência, um muro que desaba.

Junte Lô e Milton em versão pura e temos aqui um tilt de perfeição: Clube da Esquina 1 e 2 (as músicas). É um amor de olhos claros, fraterna solidão, um grito com os pés na terra. É o auge do sabor.

Bom, como prometido no título, aqui vão 5 discos para entender o que digo (isso porque não queria dizer demais). Estão por ordem de lançamento, vamos lá:

1. Milton Nascimento e Lô Borges - Clube da Esquina (1972)

Por tudo isso e muito mais: o principal álbum duplo da história da música brasileira, um sopro eterno de modernidade aliado à simplicidade, um disco para ouvir em qualquer período da vida. Um disco para lembrar de quem você é.

2. Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta - idem (1973)

Disco recém-descoberto por mim e desde então uma das maiores pérolas já escutadas por este autor, traz 4 compositores com cheiro de Clube da Esquina indie. Embora sejam terminantemente diferentes em seus estilos, o disco é conciso em seu espírito de produção despojada e o uso de elementos comuns nas músicas: arranjo de banda, vocais conjuntos, pequenas orquestrações inseridas.

Beto Guedes é o prog rock da turma e traz seu estilo (sobre o qual falarei mais tarde) alienígena de harmonização; Novelli é mais tradicional, mas tem uma jovialidade datada que soa até charmosa atualmente; Toninho Horta, motivo de eu ter chegado a esse disco, tem aquele frescor que a gente vê no sorriso de um moleque e que se quer guardar como a imagem definitiva da paz. Manuel, o audaz, músicas das melhores do clube; por fim Danilo Caymmi, que se juntou à turma no Rio, e que traz duas composições inspiradíssimas, caminhando por um lado sofisticado do samba que com aquele ambiente soava muito original. Vale muito a pena o garimpo!

3. Milton Nascimento – Minas (1973)

A entrada do céu toca “Minas”, com certeza. Pedaço do sublime, faz o tempo parar. Disco mais maduro e de um espírito único, Milton soa inóspito e doce como a própria capa, imerso nas mesmas influências prog de Beto Guedes (que participa do disco).

  1. Milton Nascimento - Milagre dos Peixes Ao Vivo (1974)

“Chegou no porto um canhão”. Disco ao vivo conceitual e sombrio, Milton no auge da sua expressão. Como é possível lançar dois discos tão incríveis no mesmo ano (Minas e Milagre dos Peixes)? E lançar um disco ao vivo reunindo-os com orquestra no Teatro Municipal de São Paulo? É desafiar o limite do incrível. Disco carregado de angústia, assim como de beleza, mas talvez não agrade tanto quanto os outros por sua imensa tristeza.


  1. Beto Guedes – A Página do Relâmpago Elétrico (1977)

Saturasom aproveita para salvar não só Milton da saturação, como também Beto Guedes, compositor de voz e harmonia única, abraçado pelos costumes pós-hippies e pasteurizado como de fato todos o são.

Beto Guedes teve brilhante trajetória nos anos 70 em todos os discos acima citados e lançou este primeiro disco solo incrível já na rabeira do movimento, mas que guarda um peso dramático e uma energia totalmente diferente dos seus contemporâneos.

De todos, é de fato o mais rock’n roll, mas marca pela sua sinuosidade harmônica que contrapõe a voz anasalada e calma, quase irônica em relação ao peso da sua música. O uso do bandolim confere um cheiro de mato diferente, e instrumentais recheados de psicodelia ganham alma com a harmonia alienígena. Digo isso porque suas dissonâncias trazem um sentido agridoce de descoberta que é como uma aparição. Tem algo de sagrado e algo de etéreo, que vem do além. Como um disco voador descendo, a sensação de um milagre.

São discos que devem ser ouvidos sempre, pois sempre vão soar diferente. Peço perdão se deixei alguns medalhões do movimento de fora (como o disco do tênis do Lô, por exemplo), mas me baseei na qualidade e coerência, e realmente acho que estes são incríveis e originais dentro dessa proposta.

Voltarei a falar de Milton, pois ele merece um post só pra ele...

Quer achar estes discos? http://thebossablog.blogspot.com/

domingo, 12 de abril de 2009

Paralamas – a 1ª banda indie do Brasil

Eu sei que Paralamas não anda tão por baixo assim, mas para mim é uma banda morta. Ao ouvir “Brasil Afora” e depois assistir o vídeo do show do Rock in Rio 85, você entende a minha frustração.

Antes de me taxar como um crítico sem vergonha, é preciso ressaltar o quanto eu amo Paralamas e que essa é uma resenha sem dúvida apaixonada. E é por esse motivo que eu nem fiz questão de ir ao show de estréia da nova turnê que rolou na minha cidade natal, São Carlos.

Herbert Vianna, para mim, está entre os maiores compositores populares e acessíveis de todos os tempos, dentre uma lista seleta: Cartola, Dorival Caymmi, Gilberto Gil (dentre os grandes da MPB geração 60, o mais acessível), Lulu Santos, que merecerá um post ressucitativo, Rita Lee, entre tantos outros. Ele é o mais brilhante da sua geração e isso não é mero fanatismo, é possível descrever:

            .: Ele fez (claro que com o acompanhamento indispensável de Bi e Barone) “O Passo do Lui”, o disco de rock mainstream mais incrível, cool e bem vendido dos anos 80, misturando pós-punk com reggae e new wave, 3 estilos de vanguarda num Brasil que nem bem ocupado era.

            .: Eles (banda) conseguiram sobreviver à mudança de atitude sobre o rock no Brasil dos anos 90 sem perder o público e a dignidade, além de reinventar o próprio som na mesma época.

            .: Manteve a humildade intacta e isso é visível ao longo dos anos, e pela própria amizade com os companheiros de banda, fator marcante.

            .: Conseguiu fazer um disco inédito, excelente e cru depois de 20 anos de banda (essa comentário é pessoal, rs).

            .: É o único nerd bem sucedido da história da música brasileira.

O Rock in Rio de 85 é sem dúvida o ponto de partida para todo este caminho.

O público carioca ainda era um misto pós-hippie e é bem divertido reparar no DVD que, pela dança de alguns, era cabível que o Jimi Hendrix estivesse tocando ao invés de uma banda dos anos 80. A outra parcela estava ali esperando o Ozzy ou o Iron Maiden e são, não preciso caracterizar, fãs de Ozzy e Iron Maiden.

Entra no palco um power trio a la The Clash ou Police, o Herbert vestindo um Elvis Costello do Leblon. Ouvia The Jam, e isso nos anos 80 era muito indie (não tinha mp3). Subiu num palco de um festival gigante com a mesma atitude de um festival de garagem, isso é indie. Um vocalista tímido tocando muita guitarra no canto do palco ao invés do meio, um baixista desencanado, um baterista selvagem. Tocaram o disco novo quase inteiro (o tal do “Passo do Lui”), com uma timbragem ao vivo em algumas músicas que não faria feio à um Libertines. Isso, nos anos 80, devia ser realmente indie.

Agora o filé do Saturasom: o pico do desgaste. Quando você ouve nesse DVD a recém-lançada “Meu Erro”, é impossível não se lembrar das dúzias de videokês, festa de tia, palquinhos, barzinhos e qualquer coisa que o valha e não pensar “essa música foi lançada um dia?”. Para mim ela sempre existiu, sei lá, é uma adaptação folclórica. Quem no universo não sabe começar o “eu quis dizer/você não quis escutar”? Pois é, naquele 16 de janeiro de 85, ninguém sabia ainda. E se você ouvir sem vícios, vai reparar no riff de baixo que desliza na batida direta, com cara de Pretenders. A voz frágil do Herbert, contrariando a virilidade dos cantores contemporâneos a ele, levando uma letra direta, derrotada, objetiva, assumida. “o meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria”.

Tirando “Patrulha Noturna” (“só to tirando chinfra com a minha lambreta”) e “Óculos” que embora seja ótima, peca pelo exagero de inocência, o resto do show poderia, claro que com uma reformulação de timbragem, ser copiado e colado na Rua Augusta hoje em dia sem problemas.

Depois desse show, a banda saiu da vida para entrar na história: lançou “Selvagem” em 86, uma mão cheia de megahits e, como uma boa estratégia (semelhante a do U2), abandonou a cara de banda pequena para bancar a responsabilidade de ser a maior banda do Brasil. E deu nisso aí, uma penca de regravações, música em novela, sucesso total. Saturasom vem corrigir esse desvio de conduta de desmerecer a obra por causa de tal acontecimento e dar a verdade dos fatos.

Só para complementar, quando “Longo Caminho” foi lançado, eu realmente achei que os Paralamas tinham voltado. Disco gravado ao vivo, guitarra, baixo e bateria com poucos metais e outros instrumentos, letras derrotistas e cruas (“o segundo que antecede o beijo / a palavra que destrói o amor”), som bem de verdade. Mas o Herbert, agora defasado fisicamente da sua função de compositor, já não consegue mais carregar o peso construído em torno do nome “Os Paralamas do Sucesso”. Não dá mais pra ser simples, ser pequeno, embora ele não tenha rifado sua dignidade. Prefiro não assistir um herói vencido, pra mim é sofrível demais. Mas quem sabe a vida não me prepara uma surpresa?

Taí, pra quem quiser conferir:

.: Vale a pena ANTES DA SATURAÇÃO:
DVD Paralamas do Sucesso ao vivo no Rock in Rio I (1985)

CD O Passo do Lui (1984) por R$9,90 (!)

.: Vale a pena DEPOIS DA SATURAÇÃO:
CD Longo Caminho (2002), decentíssimo.

.: Quase tudo lançado por eles nos anos 90 é excelente, mas vou ater-me ao que foi comentado no post, qualquer dúvida, comentem!

Sobre o site

Bom, nem todo mundo sobreviveu ao tempo como a Madonna e o David Bowie. Com a música brasileira então, o tempo foi cruel, embora ciclicamente hajam revisões. Roberto Carlos já entrou e saiu de moda mais do que o jeans com camiseta branca, e assim foi com Caetano, Gil, Erasmo Carlos, Novos Baianos, entre tantos outros artistas sobre os quais escreverei daqui pra baixo.

O tempo é cruel mas a história não. Revivamos então o cool do que hoje toca na Nova Brasil FM e divide espaço com a “nova MPB”. Trágico, cômico, comercial, Pedro Mariano. Jesus, o que fizeram com o rádio?